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sexta-feira, abril 07, 2017

Contar (ou não) Mais do que Se Deve...


Uma das pessoas que me lê todos os dias aqui no "Largo" disse-me em jeito de graça que me ficou a conhecer melhor nos últimos dias. Quando lhe perguntei porquê, disse-me o óbvio, porque tinha escrito mais sobre mim.

Ainda lhe disse para não acreditar em tudo o que lê... Mas ela abanou a cabeça e disse que não, que era eu que estava ali.

Já escrevi mais que uma vez que um blogue é sobretudo um diário. Podemos fazer desvios para os lados, escrever sobre livros, poemas, pessoas, lugares... mas nós estamos sempre lá, é impossível sairmos do interior das nossas palavras.

É como na ficção. Embora eu não vá muito na conversa que um escritor está sempre a escrever o mesmo livro (cada livro ganha uma identidade própria...), sei que estamos sempre a escrever sobre nós, mesmo que escrevamos sobre coisas que não vivemos. É a nossa opinião, são os nossos pensamentos e a nossa maneira de olhar o mundo que estão lá, por mais voltas que demos.

Voltando ao tema inicial (começo a fugir e é um problema...), às vezes precisamos de falar mais de nós, de desabafar, porque somos quase sempre mais frágeis do que aquilo deixamos transparecer. Embora esta seja a época das "máquinas inteligentes", nós continuamos a ser apenas humanos...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, abril 04, 2017

Flores para a Isabel...


Esta fotografia faz parte da minha exposição, "Passeio dos Tristes", que será inaugurada logo à tarde, às 17 horas, na Galeria-Sede da SCALA, em Almada.

O título que escolhi para ela foi, "Primavera no Ginjal" e é a fotografia mais recente desta mostra.

As flores são para a Isabel, porque lembro-me dela ter dado pela falta das flores na bicicleta, num dos seus comentários aqui no "Largo". A malta do "Ponto Final" aceitou o repto e escolheu malmequeres...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, março 12, 2017

Ler Mal e Entender Pior...

Normalmente não gosto muito de recorrer a frases com mais do que a minha idade, para explicar o óbvio e o menos óbvio, que tanto baralha o nosso quotidiano.

Um dos poetas e contistas que gosto de ler em todos os registos é o grande Zé Gomes Ferreira, o velho da cabeleira branca despenteada, que oferecia sorrisos e palavras a conhecidos e a desconhecidos (pensar que julguei que era um velho maluco, sem o reconhecer como o pai de "O Mundo dos Outros", que lera ainda na primeira adolescência..).

Esta frase retirada do seu livro de crónicas, "Intervenção Sonâmbula", explica tanta coisa... Até os comentários "selvagens" dos nossos dias que infectam as caixas de palavras de jornais, blogues e redes sociais

«Ler mal é uma das inúmeras formas conhecidas de analfabetismo português. Salvo seja, mas às vezes até chega a parecer que certas pessoas soletram sempre os jornais do avesso, com as mãos no chão a fazerem o pino mental.»

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, março 04, 2017

Ler as Palavras dos Outros


Nem mesmo aos fins de semana consigo ficar mais tempo na cama. Talvez isso aconteça porque dormir muito nunca foi o meu forte.

Comi qualquer coisa, sentei-me ao computador e antes de dar um salto pelos jornais visitei dois blogues, de duas mulheres, a Isabel e a Elvira, que "moram perto" e passam praticamente todos os dias pelo "Largo". Fiquei a pensar nas suas reflexões e também no que comentei...

A primeira constatação é que a vida mudou mesmo muito. Passámos a viver com mais conforto e fomos-nos tornando cada vez mais exigentes. Socialmente também crescemos muito, e ainda bem.

Sei que alguns homens (daqueles que aderem com facilidade às histórias de não sei quantas virgens...), gostavam mais de viver num tempo em que as mulheres continuassem a ter mais deveres que direitos. Um bom exemplo desta  "filosofia" são as palavras ditas por um deputado polaco esta semana no parlamento europeu. Num resumo simplista, disse que as mulheres eram menos inteligentes e mais fracas fisicamente, por isso não podiam querer ser iguais a nós, homens.

Sei que só posso falar por mim, mas sempre me fez confusão a minha mãe ser criada do meu pai, como eram praticamente todas as mulheres da sua geração. E soube desde cedo que não queria viver assim.

É também por isso que percebo muito bem que ninguém queira voltar atrás no tempo. Porque não é normal as pessoas casarem-se e irem viver para um quarto alugado. Podia ser há sessenta anos, onde não havia água, luz ou casas de banho em noventa por cento das casas das aldeias do nosso país. E quase tudo era bom para se fugir à fome ou à vida de escravidão nos campos...

Por isso é que existiam tantos bairros de lata à volta de Lisboa ou até Paris, povoados por gente que sonhava com uma vida diferente, e que mais tarde ou mais cedo (com muito sacrifício), conseguiam mesmo mudar de vida.

Mas não precisavam de esquecer. Nem de esconder a vida que tiveram dos filhos e netos. Tinham tornado tudo mais fácil...

Sei que agora está a falar o "historiador", mas olhar para o passado sempre foi uma das melhores ajudas para compreendermos o presente e enfrentarmos o futuro.

Foi por isso que gostei de reflectir com as palavras da Elvira e da Isabel.

(Fotografia de Walker Evans)

terça-feira, fevereiro 28, 2017

Continuação - Louvor aos Raros (Neste caso Raras...)


(Para a Ana e a Margarida)

Escrevemos também para sermos injustos, porque nos esquecemos da capa de "justiceiro" em qualquer parte e também porque acabamos por ignorar as belas excepções.

Quando falei dos funcionários públicos, tinha a "mira" apontada para meia-dúzia de trastes, que juntam três coisas que detesto (a incompetência, a bufaria e a graxice) ao seu ritmo de trabalho, que pede meças às tartarugas.

E sim, sei que os chefes é que têm a culpa, Isabel, porque além de não saberem mandar, também raramente arregaçam as mangas e dão o exemplo. Muitos preferem ficar fechados no seu gabinete a "inventar mundos" e a preparar "reuniões surrealistas" (sei o que são, já participei em uma ou duas...), com chefes ainda mais altos, onde é possível comunicar com as nuvens e discutir o sexo dos anjos e também de algumas secretárias, ao mesmo tempo que fingem que fazem o mundo avançar...

Mas eu queria falar das excepções. E não posso deixar de falar das "duas miúdas do museu" que com o seu exemplo conseguem desmontar todo o anedotário que persegue os funcionários públicos. Elas fazem milagres, com simpatia, inteligência, capacidade de trabalho, e uma coisa, que eu acho que se chama, tacto feminino.

(Óleo de Emilie Claus)

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Dizer o que se Pensa Tem o seu Preço...

Desde a minha infância que sei que dizer o que se pensa, tem o seu preço.

Por teimosia, orgulho e personalidade, ainda em construção, comecei logo a pertencer ao clube dos "livres pensadores", mesmo sem saber muito bem o que era isso.

Recordo que nas férias grandes que passava na casa da avó, quando não gostava da comida dizia-o, sem qualquer problema. O meu irmão, mais velho dois anos, mesmo que não gostasse, "comia e calava". Isso irritava a "cozinheira" e fazia com que existisse alguma diferença de tratamento entre nós dois, ele era sempre bem vindo por que era um "menino do campo", enquanto eu não passava de um  "menino da cidade"...

Cresci e não mudei tanto quanto isso.

É por isso que até consigo achar graça a pequenas coisas, como a confusão que provoca o que escrevo nos blogues (especialmente no "Casario", por ser mais regional...) a algumas pessoas, que até são capazes de "ler" coisas que nunca estiveram no meu pensamento  (quanto mais nas palavras...), inventando logo qualquer "teoria de conspiração".

É também por isso que há acontecimentos que acabam por ser ainda mais importantes que qualquer "medalha", como o episódio do presidente da Assembleia Municipal de Almada, que recusou sentar-se à mesma mesa que eu, no lançamento de um dos meus livros, supostamente por coisas que tinha escrito na blogosfera, contra o seu "partido" e a sua "câmara"...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, novembro 27, 2016

O Bom Jornalismo, as Mentiras e as Redes

Nunca foi tão necessário o bom jornalismo, numa época em que parece ter deixado de existir o meio termo e que querem empurrar o "bom senso" para longe. Até porque só o bom jornalismo poderá derrotar as  notícias "falsas" que se tornaram moda nas redes sociais...

Há acontecimentos que fazem com que algumas pessoas façam exercícios de memória. É o que tem acontecido com a despedida do "Diário de Notícias" do seu bonito edifício num dos lugares mais nobres de Lisboa. No meio de algum lamechismo também  têm aparecido boas crónicas (nos jornais e na blogosfera).

Ontem quando ainda estava sozinho no café escrevi sobre "os jornais onde nunca irei escrever", até por depois dos cinquenta os sonhos serem diferentes... prendem-se menos com lugares e cargos (até por ser a partir desta fasquia que começamos a ser empurrados para o clube dos "velhos"...). Também só me lembrei de referir dois títulos, "A Bola " e o "Diário de Notícias". Sim, são os únicos onde escreveria com gosto, se fosse convidado para tal. Isso não acontece apenas por serem duas "instituições" no mundo do nosso jornalismo, são também os primeiros jornais que me habituei a ler no começo da adolescência.

Dos desaparecidos também lia com gosto (nos seus bons tempos...) o "Diário Popular", o "Diário de Lisboa" e "A Capital", curiosamente todos vespertinos, algo que acabou, pois deixaram de existir jornais da tarde...

Com a chegada de um amigo, a prosa de café foi interrompida.

Falámos de outras coisas, distantes do mundo dos jornais e das notícias. Mas o bom jornalismo continua a ser necessário. Claro que só há bom jornalismo com bons jornalistas. Sei que hoje se mente com facilidade por todo o lado, a começar nos políticos (perderam de vez a noção do ridículo...), mas quem tem como missão a procura da verdade, doa a quem doer, não pode ter preço nem medo de incomodar os vários "poderes instalados".

Nota: Esta é a minha opinião, mesmo que vá contra a nossa realidade, em que o jornal que mais vende, é aquele que mais explora as meias-verdades e que não aceita ser neutro.

(Óleo de Francis Luís Mora)

segunda-feira, novembro 21, 2016

O Jornalismo Com e Sem Rede...

Continuo a pensar que os blogues são ligeiramente diferentes das "redes sociais" (mesmo que sejam incluídos por muito boa gente nestas novas formas de comunicar), por não resumirem a sua existência a frases curtas, fotografias de ocasião e exploração de casos polémicos, quase ao segundo. E claro, permitem que exista uma distância saudável entre os gestores e os os comentadores. 

Nos últimos tempos (graças às eleições americanas...), o facebook tem sido o alvo escolhido para as críticas de jornais e de jornalistas.

Eu ao não ter - ou frequentar - esta ou outras "redes", acabo por passar ao lado de muitas coisas "interessantes", especialmente para quem gosta de "mexericos". Mas estou longe de diabolizar estas formas de comunicação. Até porque basta-me analisar a matéria jornalística do diário que mais vende no nosso país - desde os títulos da primeira página aos seus conteúdos -, com as meias verdades e alguma ficção (apostam na notícia-novela, com episódios quase diários...) a serem transformados diariamente em notícias, para preferir ficar a ver as barcas a passarem no rio em vez de apontar dedos. 

Por fazer autocrítica, sei que bom era que alguns jornalistas e comentadores olhassem mais para o "mundo" que os rodeia e menos para o seu umbigo...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, outubro 02, 2016

Um Diário Diferente, com Mais Mundo...

Uma das perguntas que me fazem com mais frequência do que eu desejava, é como é que tenho tempo para fazer tantas coisas e ainda ser pai e marido.

Provavelmente não sou tão bom pai e marido como devia ser...

Mas depois noto que também perco muito tempo a não fazer coisa nenhuma (como quase todos nós...). Ou seja, podia fazer muito mais coisas...

Claro que há uma característica pessoal que faz toda a diferença: a minha facilidade em escrever (é uma das explicações para continuar a escrever em blogues, dez anos depois, sem grandes quebras e perdas de ritmo (sim, eu sei que as "Viagens pelo Oeste" estão mais paradas...). É também ela que explica que escreva ficção, ensaio, poesia e teatro, cada vez com mais naturalidade.

Mas além da facilidade em escrever também penso e imagino bastante.

É uma das explicações para  num domingo de manhã, me levantar da cama ainda antes do galo da vizinhança cantar (eu sei que ele que não é exemplo para ninguém, pois deve gostar mais de dormir que eu e só lá para as nove é que começa a cantar...). Porque comecei logo a matutar num projecto para o fim do mês e não podia de forma alguma deixar as ideias escaparem...

Como escrevo directamente (99% das vezes) no "bloguer", acabo por me perder muitas vezes no caminho. Ou seja o que escrevi até aqui, parece ter pouco a ver com o título desta "posta". Mas é isso que faz do "Largo" um diário diferente, com mais mundo (segundo as estatísticas até chega aqui gente da China).

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, julho 16, 2016

"Pausa no Miradouro"

"Pausa no Miradouro" é o título de mais uma fotografia da série, "Blue & Yellow", da tal exposição de Setembro...

Como vou fazer uma pausa para férias, que também serão da blogosfera e de tudo o que está dentro dos computadores, achei que esta imagem, já com um cheirinho de férias e também de paragem escolher a próxima viagem, tem todo o simbolismo de quem parte com bilhete de volta em Agosto...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, junho 01, 2016

Grande Novidade...

Passei por um espaço de publicidade das culturas e fui quase obrigado a olhar nos dois cartazes com amor. O primeiro por razões óbvias, o segundo pelo lugar comum do título do filme, e também pela imagem, como se o amor entre dois homens fosse uma coisa do próximo século.

Basta passear pela blogosfera para perceber que "o amor é (mesmo) uma coisa estranha" (os outros lugares com redes, só conheço de nome...). 

Há quem escreva com relativa facilidade sobre as suas histórias povoadas de amores impossíveis, fazendo-o muitas vezes quase em forma de "folhetins". Esperam com relativa facilidade pelo quase impossível, embora também possa ser apenas uma "fantasia".

Também tenho escrito bastante (fora do blogue...) sobre a facilidade com que nos desentendemos e como extremamos posições, quase como se homens e mulheres tivessem vindo de planetas diferentes. Até por continuar a pensar que não somos assim tão diferentes.

E nem vou falar dos outros lados do amor, entre o absurdo, o surreal, que visitam algumas conversas decalcadas de jornais e revistas, cujos protagonistas parecem saídos de filmes "noir", embora sejam de carne e osso. São gente capaz de fazer tudo por amor, até matar, porque fingem entender o casamento como algo eterno, como se ensina na missa.

Por onde eu já vou, e apenas porque passei à hora errada  pela publicidade errada.

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, maio 24, 2016

Ainda a Propósito da Arte Urbana de Rua em Almada

Pois é Isabel, Almada é mesmo uma cidade privilegiada em "Arte Urbana".

Claro que não falo dos "borrões", falo mesmo de Arte (que podemos ou não gostar...).

O Município tem conseguido arranjar espaços para se festejar esta forma de arte, convidando os jovens que melhor se expressam, para deixarem a sua marca em várias freguesias do Concelho.


As fotografias que ilustram as minhas palavras foram tiradas no Caramujo (uma antiga zona fabril, degradada e abandonada), Cova da Piedade.

(Fotografias de Luís Eme)

quinta-feira, abril 07, 2016

A Fuga ao "Coração" da Notícia

É mais fácil do que o que parece fugirmos do tema principal de qualquer blogue e comentarmos coisas diferentes, focando a nossa atenção muitas vezes apenas num pormenor (aquilo que nos tocou mais ou nos trouxe qualquer memória). 

Estou a dizer isto porque ontem em vez de falar da beleza das livrarias e da "Ler Devagar", em Alcântara, em particular, foquei a minha atenção na história do espaço, colocando em dúvida as palavras da Rosário (nas "Horas Extraordinárias"), por ter trabalhado naquele espaço quando ainda era EPNC (Empresa Pública Notícias e Capital), em 1981.

Como me lembrava do que sucedera com o "totobola" (que tinha uma tiragem de milhões e mantinha uma rotativa a trabalhar 24 horas por dia...), que fora retirado desta empresa pública para a concorrência privada (Mirandela), e ao que parece a EPNC (que já estava em "situação económica difícil") acabou por ser absorvida pela mesma empresa (que tinha na época alguns sócios ligados ao governo de então...). Nada de extraordinário se contabilizarmos o que tem acontecido tantas vezes, em dezenas de empresas públicas, que são vendidas a preço de saldo, quase sempre em prejuízo do Estado e em benefício de amigos.

Nem precisamos de recuar muito na história, há vários exemplos de privatizações feitas pelo último governo de Coelho e de Portas, que beneficiam sobretudo os compradores.

Na minha opinião, tem sido esta falta de sentido de Estado e de vontade de servir, dos nossos governantes, a grande responsável por o nosso País continuar na situação em que se encontra...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, março 31, 2016

Ideias, Caixotes e Repetições

Para quem escreve, uma das coisas mais frustrantes que nos acontece, é a mudança que existe dentro de nós em relação às ideias. Essas mesmo, que nos surgem do nada e parecem boas. Parecem. E isto passa-se apenas de um dia para o outro (quando não é de uma hora para a outra...). Não sei se isso só acontece a quem é exigente e tem um "caixote do lixo" aberto dentro dele, sempre preparado para receber ideias amachucadas. É capaz... 

Um exemplo? Eu ontem tinha pensado escrever aqui no "Largo" sobre o facto de passarmos o tempo quase todo a escrever as mesmas coisas, de nos repetirmos, mesmo sem darmos por isso. Só que essa ideia hoje parece-me uma banalidade...

Mas se nós até nos erros, nos repetimos, porque razão não acontecerá o mesmo em tantas outras coisas da nossa vidinha, como a "escritaria", por exemplo?

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

O Coxo que Fingiu Querer Passear no Largo...

Quando me surge uma ideia maluca, daquelas que podem resultar no mundo estranho da literatura, escondo-a quase sempre dos blogues.

Mas hoje, ao passar os olhos por um dos cadernos onde guardo algumas personagens, houve uma que quis mesmo sair e ir dar uma volta até pelo Largo. Fiz-lhe a vontade...

«Aquele homem, que não conhecia de sitio nenhum, disse-me em jeito de segredo, que desconfiava que Deus era mesmo capaz de existir.
E começou a contar-me a sua história:
- Eu estava desempregado e acabei por ter a ideia luminosa de me fazer passar por coxo no metro de Lisboa. Coloquei uma palmilha desconfortável num dos sapatos, muni-me de um par de canadianas e aí andei eu, sempre com a mesma lengalenga: a pedir qualquer coisa para comer. 
Sorriu antes de continuar:
- Às vezes davam-me os lanches, que aceitava muito agradecido, para não estragar o número com a soberba. Só não sabia o que vinha a seguir...
Coçou a cabeça e olhou para o chão antes de continuar:
- Passadas duas semanas, ao tirar a palminha do sapato e andar por ai, senti que continuava a coxear. Pensei que passava mas não passou. E nunca mais parei de coxear, mesmo sem canadianas. Já tinha ouvido falar que Deus está mais atento do que parece à nossa vida, e que castiga quem se porta mal, etc. Mas porra, eu só fiz isto por precisar mesmo de dinheiro para sobreviver. Nem sequer roubei ninguém. E só me dava esmola quem queria. Sabe, se pudesse gostava de ter uma conversa com esse tal Deus, que nem sequer sei se existe.
Eu cada vez menos dado a religiosidades, ofereci-lhe um cigarro e paguei os nossos dois cafés, mesmo sem ser parente de qualquer deus.»

(Fotografia de Roger Schall)

quinta-feira, janeiro 28, 2016

A "Alegria Breve" de Virgílio


Se Vergílio Ferreira fosse feito da mesma massa de um Manoel de Olveira (que tinha realmente algo de imortal...), estaria por cá a comemorar os seus cem anos de idade. Haveria certamente muita festa na "aldeia". 

Sei que hoje será recordado um pouco por todo o lado. Além dos blogues, os jornais também falarão dele nas páginas culturais, até a televisão é capaz de lhe dispensar um minuto (só espero que não andem por aí a perguntar como era o professor, em vez de recordarem o escritor)...

Mas o mais importante é que a sua obra sobreviveu-lhe. Sei que é um escritor lido e recordado com alguma normalidade (não se pode pedir mais, até porque nunca foi um escritor popular ou fácil...), numa época de grandes esquecimentos.

A primeira obra que li da sua autoria foi "Manhã Submersa", que gostei bastante de ler, por ter conhecido um mundo quase secreto, onde se educavam (com demasiada crueldade, diga-se de passagem...) os futuros "guardiões de Deus".

Como gosto muito de diários, autobiografias e afins, li com interesse redobrado uma boa parte dos volumes da sua "Conta-Corrente" (são nove no total), que são sempre olhares preciosos sobre a sociedade.

Mas a obra que mais gostei de ler (e curiosamente foi a última que li...) foi a sua "Alegria Breve". Não tanto pela história, mas pela excelência de escrita.

terça-feira, janeiro 12, 2016

Um Artista Muito Maior que a Banalidade dos Nossos Tempos

Como disse ontem, não tinha pensado escrever nada de mais sobre David Bowie, apesar de o admirar como  extraordinário músico e artista que foi e será (a sua obra é de uma resistência pouco comum nestes dias ricos em banalizações e esquecimentos).

Felizmente a "excessiva" exposição de David Bowie na blogosfera em vez de me afastar fez com que recordasse muitas músicas que já esquecera. Foi bom voltar a ouvir temas do álbum, "Hours..." (1999) - o que mais me tocou e que mais ouvi  da sua vasta obra -, e tantas outras músicas que são o exemplo da sua versatilidade e qualidade "camaleónica", que irá fazer com que seja alvo da atenção de gente mais jovem. 

Não digo que irá atingir a unanimidade, mas o facto de possuir um talento fora do comum, vai fazer com que ultrapasse com grande sucesso estes dias excessivos de exposição, que em vez de "secar" a sua discografia, vão fazer com que ganhe mais admiradores.

E para terminar, não posso deixar de realçar o seu último álbum, "Blackstar", uma despedida (provavelmente voluntária...) que tem tanto de fulgurante como de belo. As suas músicas enchem-nos a alma...

segunda-feira, janeiro 11, 2016

A Memória do Largo

Não tenho dado tanta atenção a efemérides como dava noutros tempos no "Largo". Acho que isso tem acontecido de uma forma natural, nós  vamos mudando, às vezes quase sem darmos por isso. Embora sejamos "animais de hábitos", cansamos-nos com alguma facilidade das coisas. É por isso que há peças de roupas que deixamos de usar, quando ainda estão em bom estado.

Eu sei que um blogue não é uma camisa ou umas calças, mas quando tem uma vida diária, é necessário tentar escapar à banalidade e à repetição (o que nem sempre se consegue...).

Foi por isso que ontem não assinalei a passagem do nonagésimo aniversário do mestre Júlio Pomar, um dos nossos grandes artistas plásticos. E é também por isso que não vou dar um destaque especial a David Bowie, que nos deixou ontem, mesmo reconhecendo que foi um extraordinário artista pop. Para falar dele, também devia dizer alguma coisa sobre o Vasco Malpique, que nos deixou no sábado e que faz parte de uma família de desportistas almadenses, que tanto honrou o andebol almadense.

Claro que também sei que muitas vezes registamos estas efemeridades, por nesse dia não termos nada de especial para dizer. Mesmo que sintamos admiração pelas pessoas que enaltecemos. 

Isso acontece porque a blogosfera cria-nos o bom vício de "comunicar" com os outros (que muitas vezes não fazemos ideia de quem sejam...). 

(Óleo de Linda Pochesci)

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Algumas Mudanças, Ligeiras...

Tinha pensado criar um blogue novo em 2016, que teria como título "Cem por Cento", no qual todos os textos e imagens publicados seriam da minha autoria.

Mas depois comecei a pensar e cheguei à conclusão que quer o "Largo" o "Casario"  e as "Viagens" ainda não tinham esgotado o seu tempo de vida.

Foi  por isso que resolvi fazer apenas alguns pequenos ajustes na imagem dos dois blogues principais cá de casa (no "Largo" mal se nota...).

O "Casario" irá tornar-se ainda mais o meu blogue de fotografias (vou tentar "postar" apenas fotos da minha autoria), sem descurar alguma informação local. Irei também estrear uma série semanal amanhã que irá homenagear alguns amigos especiais.

O "Largo" continuará a ser um espaço de liberdade, atento a tudo o que me rodeia, com uma incidência especial pelas coisas da Cultura, por ser o meio onde estou inserido, como criador e também como "fabricante de acontecimentos".

(Fotografia de Luís Eme, rente ao Cristo Rei)

sábado, outubro 31, 2015

A "Palha" e um Pé Dentro e Outro Fora


A blogosfera é um fenómeno curioso. Há quem diga que já teve melhores dias. É possível.
Eu ainda continuo a ter prazer em escrever e ler  neste modelo virtual, onde as palavras - e em alguns casos as imagens... - continuam a ser o mais importante.

Ontem encontrei um amigo que, como ele próprio diz, está com um pé dentro e outro fora dos blogues (às vezes está um mês sem escrever uma linha). 

Ele sabe porque é que isso acontece. Por um lado escreve de uma forma irregular, apenas mesmo quando lhe apetece. É impossível encomendares algum texto a este rapaz, diz-te logo que não. É um idealista, incapaz de participar em colectâneas do que quer que seja. Diz que não precisa de ter obra publicada, nem de ser poeta ou escritor. Precisa apenas de escrever quando lhe apetece.

E acabou por desabafar que também se fartou da malta dos blogues, por escreverem demasiada palha. Eu sorri e assumi que pertencia a esse grupo, mas apenas por não me levar demasiado a sério e me aproveitar da função "diaristica" que os blogues têm. Às vezes em vez de falar com as paredes falo com os blogues, por saber que é mais fácil ouvir o eco...

O óleo é de David Jewel.