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terça-feira, setembro 27, 2016

«Passávamos o tempo na rua a jogar à bola.»

Hoje quando fui levar a minha filha à escola ela perguntou-me se tinha jogado futebol quando era pequeno.

Disse-lhe a sorrir que joguei quando era pequeno e quando era grande.

E depois voltei à minha infância e disse-lhe que no bairro onde cresci «passávamos o tempo na rua a jogar à bola.» Recordei os baldios que transformávamos em campos de futebol, como o campo de "terra preta" que nos pintava as pernas e que irritavam a avó, que ameaçava proibirmo-nos de ir brincar para a rua detrás...

Já de regresso pensei que em nome da "segurança" e da "especulação imobiliária" foram-nos roubando a rua e hoje é raro vermos crianças a brincar fora de casa (excepção para os espaços criados para esse efeito...).

(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, setembro 18, 2016

Passear e Fotografar Lisboa

Hoje andei a passear por Lisboa na parte de manhã.

E embora tenha passado por ruas que me são familiares, descobri vários motivos de interesse como a casa do "Manel Barbeiro" (na zona da Bica), com um horário muito peculiar, muito virado para os clientes da "vida artística"...

E não levem a loura a sério, porque é uma "Marylin" a brincar...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, agosto 19, 2016

"As Primeiras Coisas" de Bruno Vieira Amaral


Comecei a ler, "As Primeiras Coisas", de Bruno Vieira Amaral no final de férias. Cheguei ao fim há já alguns dias e como tinha sentido logo vontade de dizer algumas coisas, aqui estou eu.

Devo começar por dizer que se trata de um bom livro, muito bem escrito, com acção, humor e originalidade. No entanto devo realçar que, mesmo sabendo que cabe quase tudo no "romance", acho que "As Primeiras Cosias" são outra coisa...

O autor foi inteligente na forma como montou esta história, depois de uma pequena divagação, faz a colagem de dezenas de crónicas biográficas sobre as personagens (muito bem construídas, com todos os "cromos" que são possíveis de encontrar num bairro problemático, entre o esquecido e o abandonado...) do Bairro Amélia, um dos muitos que povoam as cidades suburbanas que rodeiam a Capital, neste caso particular o Barreiro, metendo-as com relativa facilidade dentro da história autobiográfica que nos quis contar.

Apesar da qualidade da escrita, senti a falta da densidade do romance tradicional e do protagonismo de uma ou outra personagem (como o autor escreve na primeira pessoa, acaba por ser ele a figura principal da história, do princípio ao fim).

É também por isso que acho que este livro não merecia tantos prémios para romances (na contracapa são publicitados quatro...). Sem estar a ser "má língua", espero que o Bruno não tenha sido premiado por estar ligado a um dos dois grandes grupos editoriais que dominam o nosso pequeno mercado livreiro.

E claro, fico à espera de um segundo livro do Bruno, desejoso de que seja um romance de verdade, daqueles que as personagens tomam conta da história e conseguem fintar o autor...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, maio 27, 2016

O Desaparecimento Misterioso dos Gatos da Amélia

Os tempos mudaram mesmo.

Não quero com isto dizer que que não continuem a existir desaparecimentos misteriosos de criancinhas por esse mundo fora, mas parece que há novos nichos de mercado, até porque os animais em muitos lares ocupam hoje o lugar da miudagem.

A única certeza que tenho, é que pelo menos os gatos bonitos começam a ser alvo da cobiça alheia, de uma forma notória.

O problema não é do quintal, penso que todos os animais gostam de ter espaço para correrem e saltarem. Talvez seja mais dos vários "namoros" de quem passa pela rua e se apercebe da doçura ou rebeldia dos gatos, que raramente se fazem rogados à oferta de uma lata de comida. Em troca os "benfeitores" querem a festinha da ordem e depois esperam pela melhor ocasião...

O primeiro a desaparecer foi o Miguel, depois foi a mãe, a Rita, e agora foi a Diana. Curiosamente tudo gatos "siameses" (e não persas...) e de olhos azuis.

O único que resta é o "Kalanga", com o seu pêlo preto e os olhos castanhos, já muito visto por cá. E também um pouco mais rebelde que os irmãos...

Depois do desaparecimento da Diana, os meus filhos sabem que dificilmente ela voltará. Até porque provavelmente tornou-se "gata de casa", ganhou uma "prisão confortável" em vez do quintal da avó, que até tem uma nespereira, para ela afiar as unhas...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, abril 27, 2016

Uma Cidade Para os Outros

Não gosto desta Lisboa que está a perder a autenticidade, da Cidade que se está a virar para fora e a esquecer a sua verdadeira essência bairrista, apenas porque se transformou num óptimo negócio, para alguns, apostados em a espremer até ao tutano.

O mais estranho é que nos acusam de trabalharmos pouco, mas são os outros povos, oriundos de países mais desenvolvidos (os turistas estão longe de ser apenas reformados, pois há entre eles gente de todas as idades...), que passam o tempo a viajar, a conhecer mundo...

Os preços dos bilhetes para os museus aumentaram, penso que os próprios bilhetes de transportares são diferenciados (por enquanto...). A comida nas partes que atraem mais visitantes também deve ter sido inflacionada. 

Nunca tinha visto tantos eléctricos a circularem pelas colinas, com "aluguer" como destino, a par das "motorizadas-táxi" coloridas e voadoras, conduzidas por jovens de ambos os sexos que nos fazem lembrar o oriente,  até pelo seu desembaraço.

Sei que este "filão é esgotável", pelo menos desta forma confusa e atabalhoada, que nos faz lembrar mais o Norte de África e algum Oriente, que a Europa. Mas talvez seja isso que estas pessoas procuram... e como agora não dá muito jeito visitar a Síria, o Egipto, a Líbia ou Tunísia, visitam este Portugal, com exotismos para quase todos os gostos.

A identidade nacional? Está no fado, e não se fala mais nisso...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, março 23, 2016

Viagens pela Memória à Mesa...


Hoje fui à minha Cidade Natal almoçar com a minha mãe e o meu irmão.

O passado finta quase sempre o presente e o futuro, através das conversas sobre as pessoas que povoaram a nossa meninice.

Sei que sou quem tem mais dificuldade em arranjar rostos para colar aos nomes que a mãe e o mano vão trazendo para a mesa.

Tenho a desculpa de ter partido aos dezoito anos para a "Cidade Grande" e, embora nunca me tenha afastado demasiado, fui perdendo raízes, fui esquecendo a existência de demasiadas pessoas, que o tempo gosta de "engolir".

Louvo a paciência dos meus filhos que são meros espectadores destas conversas sobre lugares e pessoas, que fazem parte do meu imaginário, de uma Cidade e de um Bairro que já só existem nas nossas memórias...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, março 17, 2016

O Fado Vadio e um Outro Bairro Alto


Ontem encontrei um rapaz que não devia ver há mais de vinte anos.

Encontrámos-nos por acaso nas ruas de Lisboa. Acabámos por parar num café onde oferecemos alguns minutos de conversa um ao outro.

Falámos de vários tempos e de várias peripécias, desde as aulas de natação que demos em conjunto (que eu evitava, porque ele passava mais tempo a chatear os miúdos que a ensiná-los a nadar...) às noites de quinta-feira em que nos enfiávamos no Bairro Alto com mais dois ou três amigos depois de jantar, e que se prolongavam até ao raiar do dia.

Nesse começo da década de oitenta, em que ainda andávamos a aprender a ser homens, o fado ainda não estava na moda, as prostitutas e os seus "donos" ainda tinham o seu território no Bairro, tanto nas ruas como em alguns bares, que tentavam fintar a modernidade, perfumados com vinho tinto, carapau frito e "águas de colónia" e lacas baratas que as "meninas" (algumas já quarentonas...) usavam.

Perguntei-lhe se ainda cantava o fado. Começou a sorrir e abanou a cabeça a dizer que não. Depois disse-me que continuava a gostar da canção de Lisboa e que ainda sabia de cor os dois ou três fados que cantava sempre que lhe pediam, embora gostasse de se "fazer caro". Pelo menos isso aprendera com as "vedetas", a só responder às chamadas para  o palco improvisado com muita insistência...

Claro que falámos de outras coisas, dos filhos que fizemos, das mulheres que amámos, dos amigos que perdemos de vista. Da vidinha, como diria o grande poeta O' Neill...

(Fotografia de Toni Frissel)

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Uma Memória Deliciosa


Hoje lembrei-me de ti, ao ver um casal de pequenotes a caminhar na rua, ele a fingir dar-lhe pouca confiança e ela a não parar de o perseguir e de se meter com ele.

Sorri para dentro de mim, ao lembrar-me que também não queria que me desses a mão quando andávamos os dois na rua. Só o podíamos fazer no quintal do nosso prédio. Como se ter uma namorada em tão tenra idade fosse tudo menos um motivo de orgulho...

Foi quando pensei que nós homens e mulheres, andamos por cá há já tantos anos (uns bons milhares...) e ainda não aprendemos a lidar com as nossas diferenças, e a amar com naturalidade...

(Óleo de Dima Dimitriev)

quarta-feira, dezembro 23, 2015

«Ainda acreditas que as mais sossegadas são as piores?»


Quando tu me perguntaste com um sorriso: «Ainda acreditas que as mais sossegadas são as piores?» Limitei-me a devolver-te o sorriso.

Claro que sabia que as sossegadas não eram piores nem melhores que as outras, apenas mais discretas.

Sabia que por causa deste dito popular, as pessoas sossegadas sempre foram olhadas quase à lupa, em movimentos ascendentes e descendentes. Quase que se tratava de um trabalho de investigação, como se através do olhar fosse possível entrar dentro das pessoas e descobrir os segredos que guardavam e os sonhos que tinham. Era como se escondessem um segredo, ou pior, uma anomalia.

Aquilo que eu sempre soube era que as sossegadas eram as menos desejáveis, e desde os tempos da meninice. Não que gostasse especialmente do tipo de miúda "maria-rapaz", mas era importante sentir-me acompanhado, nem que fosse para dar comer aos peixes. Nunca achei muitas piada às "torres de marfim" onde se guardavam princesas...

Infelizmente foi o que te aconteceu. Durante a infância e adolescência mal pisaste a rua. Lias muito, o que em vez de te sossegar só te inquietou. Era esse o teu maior segredo. Eras uma sossegada inquieta, com tantos sonhos escondidos nas páginas dos teus diários, que um dia queimaste. 

Foi quando decidiste deixar de ser uma mulher sossegada.

O óleo é de Henri Lebasque.

terça-feira, dezembro 08, 2015

A Cidade que Não Cansa o Olhar


Há dias pus-me a pensar porque razão ando tantos quilómetros a pé em Lisboa (distraído, quase que a atravesso de uma ponta a outra...).

Só encontrei uma explicação: é uma Cidade  que que nunca nos cansa o olhar. Provavelmente isso acontece por estar longe de ser bem  projectada  e organizada, o que a torna surpreendente, a todos os níveis. Vamos andando e surge sempre algo de novo à nossa frente, que nos leva a descobrir o que se esconde para lá da esquina.

Claro que a sua claridade, em qualquer estação do ano, também deve ter a sua influência.

O mais giro é que apesar de todas estas minhas andanças, tenho sempre a sensação que conheço mal Lisboa (até por ser péssimo em nomes, de ruas, de pessoas, de cafés, e até de livros e filmes...). É por isso que fico feliz sempre que descubro algo de novo, mesmo que esteja dentro de um bairro antigo.

quarta-feira, novembro 11, 2015

Os Nomes de Guerra na Infância


Na infância e adolescência os erros são mais facilmente perdoáveis, porque não são idades de reflexão mas sim de brincadeira e risota. Ou seja, o disparate vive muito mais perto de nós.

Mesmo assim nunca me esqueci da lição de ética e moral dada por um professor no segundo ano do ciclo preparatório, que nem se preocupou por estarmos numa fase da história cheia de excessos de liberdade (PREC).

Fez-nos perceber o quanto era doloroso passarmos a vida a chamar coxo ao nosso colega que tinha uma perna mais curta que a outra e que não precisava de ser lembrado de que coxeava de verdade, a todas as horas. Deu-nos mais exemplos do humor fácil e baixo, que utilizávamos com abundância. E se ainda não se usava o termo "badocha", "havia "baleias" à farta no recreio.

Podemos não ter mudado muito no nosso comportamento na época, mas eu não esqueci aquela boa lição em várias situações pela vida fora...

Já adulto fiz parte de um grupo de amigos, em que posso afirmar que aquele que subiu mais na vida socialmente (cargo de chefia na banca), era o mais provocador e mais ordinário. Algo que lhe causou alguns dissabores na rua, inclusive ajustes de contas com maridos que não se ficaram com os piropos ordinários desta figura, que não vejo há uns bons dez anos.

Irritava-me solenemente que quando jantávamos em grupo, ele aproveitasse de imediato algum "aleijão" físico de um dos empregados para se armar em engraçado, utilizando termos como "vidros" ou "gordo", para chamar o tal funcionário. Mas de nada valiam as nossas chamadas de atenção. Talvez se aproveitasse da nossa companhia para se libertar de todas as horas em que era escravo da gravata, do terno e da etiqueta...

Tudo isto porque ao ouvir as aventuras de infância de dois amigos que moraram na mesma rua (perto da Alameda), voltei a recordar o professor. Disseram-me entre outras coisas, que na rua todos tinham alcunhas, mas nenhuma tinha alguma coisa que ver com a aparência física. Isto aconteceu porque uma das melhores pessoas daquela rua era um cego, que os encheu de histórias pela infância fora. Deram o bom exemplo do Leandro, o único preto das redondezas, que foi sempre o "King" da rua.

A fotografia é de Denise Colomb.

segunda-feira, novembro 09, 2015

Já Não há Jornais de Rua como Antigamente


Hoje durante o almoço dei uma volta quase completa por Almada Velha, guiado pelo Chico, pelo Orlando e pelo Carlos. Reparei que a maior parte dos nomes que apareciam enquanto íamos percorrendo as ruas Capitão Leitão e José de Mascarenhas, eram nomes próprios colados a alcunhas. E se lhes perguntasse quais eram os apelidos, talvez ficassem a coçar a cabeça.

Como tem acontecido em tantas conversas lá surgiu a Rita "Macha", o mais completo e pitoresco "jornal" de toda a Almada Velha... Desta vez também fiquei a saber onde viveu.
Quis saber o porquê do "Macha", ninguém me soube dizer. Perguntei se ela era uma mulher grande, disseram-me que sim.

Quando vinha para casa pensei que não são só os jornais de papel que estão em crise, também as chamadas "coscuvilheiras" estão em crise, pelo menos as de rua. Já não existem mulheres bem informadas - e boas informadoras, das que raramente descuravam os pormenores mais interessantes - , sempre em cima dos acontecimentos que podiam ser notícia de rua, como foi o caso da popular Rita "Macha".

Pois é, a realidade diz-nos que já não jornais de rua como antigamente...

A ilustração é de Jon Whitcomb.

domingo, novembro 08, 2015

Passam por Nós Todos os Dias e Continuam sem um Nome e uma Voz


Estava a tomar o pequeno almoço e a olhar pela janela, satisfeito com o dia de Sol que temos pela frente, quando passou pela rua uma jovem mulher na companhia do seu pequeno cão. Passa por aqui pelo menos uma vez por dia, há pelo menos meia dúzia de anos. Reparo que é moderna, elegante e diferente (os penteados têm a sua marca pessoal), veste roupas confortáveis (pelo menos nestes passeios). Não é feia nem bonita, é ela. E não sei mais nada da jovem mulher. 

Ela é apenas um caso dos milhentos que nos passam pelos olhos diariamente, como o sujeito que encontro há anos no café e que nunca trocámos um simples bom dia ou boa tarde. Sei apenas que se senta na mesma mesa, perto da janela, gosta de andar de gravata e é um lobo solitário, daqueles que parecem não ter família. E pede sempre a bica cheia.

E nem vou falar dos vizinhos, não os do meu prédio mas os da minha rua. A maioria tem apenas rosto, nunca um nome. Por falar nisso, reparo que cumprimento mais as pessoas mais velhas que as da minha geração e mais novas. Talvez tenham sido elas que tenham começado a dar-me os bons dias e as boas tardes. E a maior parte conhece melhor a minha biografia familiar que eu a deles. Viram-me vir viver para aqui sozinho, depois descobriram-me uma companheira e viram nascer os meus dois filhos, que conhecem desde os tempos de colo até serem gente quase crescida.

Há o hábito de se dizer que as cidades cortam os laços humanos. Não sei se é verdade. Acho que muitas vezes somos nós que escolhemos viver nas cidades grandes para sermos gente sem nome...

O óleo é de Avigdor Arikha.

segunda-feira, abril 27, 2015

Encontro com Palavras Esquecidas


Encontrei um daqueles papeis em que escrevo coisas quase para nada, misturado com outras inutilidades. Por curiosidade fui ver o que estava lá.  Descobri a facilidade com que desenhara o meu "conservadorismo", em apenas dois apontamentos:

«Desde que comprei casa, nunca mais mudei. Mesmo em todo o tempo que vivi com os meus pais, só mudámos de casa uma vez, quando passámos de uma casa alugada para uma casa própria.»

«Os cafés que frequento são os mesmos de há duas décadas. Isso acontece sobretudo por ser bem tratado, o que faz com que me sinta quase em casa em qualquer deles.»

Se tivesse dúvidas de que sou mais conservador que liberal no curso normal da vida, perdia-as...

O óleo é de Laura Westlake.

sexta-feira, abril 17, 2015

Gostar de Ver a Chuva a Cair


Há muitos motivos para gostarmos de ver a chuva a cair.

Eu durante a minha infância gostava muito de ficar do lado de lá da janela, a ver os fios de água a inundarem as ruas. E se recuar até quase às minhas primeiras memórias, quando a minha rua ainda não era de alcatrão, consigo "ver" a chuva implacável a abrir buracos, as populares poças, que ficavam com uma cor lamacenta e eram um perigo para as pessoas que circulavam na rua. Embora ainda não existissem ainda muitos carros, não era de excluir a possibilidade de ficarem com as roupas castanhas...

E que dizer a um passeio pelo centro da chuva com uma boa companhia? De preferência com chapéu e com algum romantismo...

Tudo isto porque este Abril anda entre o Sol e a chuva...

A ilustração é do Loui Jover.

domingo, março 15, 2015

A Gaiola das "Malucas"


Na minha cidade há muita gente, pouco anónima, que gosta de alimentar os animais sem dono que vagueiam pelas ruas.

Um dia destes vi mesmo uma senhora a puxar um carrinho de compras cheio de milho que espalhava em locais certos, para encher a barriga aos pombos, sem se preocupar com as indicações proibitivas da Autarquia (houve uma altura que até tinha um "alimentador de pombos" que distribuía milho especial pelas ruas para estes não se reproduzirem...) ou com as palavras de quem chama a estas aves, "ratos com asas".

A poucas centenas de metros da minha casa, há três mulheres que se revezam na alimentação de gatos vadios e agora uma delas costuma levar uma gaiola metálica e o marido (julgo eu...) anda com uma espécie de camaroeiro a ver se os caça e mete na "armadilha".

Entre outras coisas é um exercício de paciência, até porque os gatos são dos animais mais espertos que encontramos pelas ruas.

A minha filha baptizou aquela coisa como a "gaiola das malucas". Mas ainda nenhum de nós percebeu para que "experiência científica" andam a apanhar gatos. Como conheço uma das mulheres, fiquei de lhe perguntar, para esclarecer a curiosidade cá em casa.

O óleo é de Steven Scott Young.

quarta-feira, março 11, 2015

O Silêncio Ensurdecedor das Pessoas e a "Revolta" dos Carros


Hoje quando levava a minha filha à paragem do metro, um carro não só deitava fumo como quase que "gritava de raiva". Ela perguntou-me se aquele barulho era normal. Disse-lhe que não. Depois acrescentei que as pessoas cada vez vivem com menos dinheiro e o arranjo dos carros é caro. 

Não fui mais longe, não lhe quis dizer que a maioria de nós vivemos cada vez pior, nem falar de quem não tem trabalho...

Mas mete raiva a falta de respeito que estes governantes de merda têm pelas pessoas.

Não sei o que vem aí do IMI, acredito que a montanha vai parir um rato, mas apenas por ser ano de eleições.

Mas o que me incomoda mais é o silêncio das pessoas. Mais ainda que as sondagens encomendadas dos empates quase técnicos. Será que gostam de ser espezinhados? Só têm palavras desagradáveis para quem vive a seu lado? De resto, limitam-se a  "aguentar", como disse um dos banqueiros, que se devem divertir imenso à nossa custa...

Também não disse à minha filha que o nosso carro também já devia ter ido à revisão...

O óleo é de Brent Lynch.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Os Gestos de Desconhecidos


São os gestos dos desconhecidos, que ainda nos fazem acreditar na espécie humana.

Quando alguém que não nos conhece de parte alguma nem está à espera de nada, é capaz de nos ajudar, apenas porque sim, porque naquele momento decidiu não virar costas ou fechar os olhos à vida, as coisas parecem fazer sentido.

Mas temos de aceitar sem dramas que começam a ser gestos raros, nas sociedades que cultivam o individualismo e onde se finge que o outro não existe, com quem nem sequer trocamos um bom dia ou uma boa tarde.

Claro que os gestos dos conhecidos também sabem bem, mas são diferentes. Quando ainda vivemos numa espécie de "bairro", em que trocamos além do bom dia, um sorriso e duas ou três palavras com a vizinhança (como ontem, quando eu disse a um dos vizinhos na rua, que andava o diabo à solta...), sabemos que ainda existem "portos de abrigo" por aí...

É que nós, ao contrário do que muito boa gente finge pensar, não somos meras estátuas, como as de Berit Hildre.

terça-feira, dezembro 23, 2014

Boas Festas


Continuo sem o meu computador (embora o meu sobrinho, que conseguiu salvar praticamente tudo de importante que estava no disco e me tenha emprestado um outro, mas com uns programas "estranhos" (não são da família "microsoft"...), aos quais ainda não me adaptei...

Mesmo assim, não quis deixar de passar por aqui, para desejar Boas Festas a todos os que passam por este lugar (comentadores ou não) e de alguma forma dão vida ao "Largo" que gosta de ter memória.

Um forte abraço para todos.

Vou colocar aqui este desenho do Banksy (grato Joana...), pelo seu simbolismo, pois Jesus neste milénio tem de escolher outro lugar para nascer, já não poder ir a Belém...

domingo, abril 06, 2014

A Lisboa Bairrista


A modernidade das cidades, pequenas e grandes, quase que roubou a identidade bairrista (e até alguma rivalidade, que alimentava o associativismo...).

Lisboa, apesar do seu ar moderno e cosmopolita, conseguiu manter de uma forma natural o seu outro lado - não menos atractivo -, antigo e castiço, que acaba por ser um dos seus cartões de visita mais apreciados para quem vem de fora.

Alfama continua a ser um dos lugares mais inspiradores para quem se perde pelas suas ruelas, até chegar ao Castelo, um dos muitos miradouros da Cidade Branca.

Uma viagem de eléctrico pelas suas colinas, é obrigatória (assim como de cacilheiro...), até por terem um preço módico...

Mas esta Lisboa  não é só Alfama ou o  Bairro Alto, é também a Mouraria, a Madragoa, a Bica, São Bento, a Graça, lugares que nos prendem muito mais que o olhar.

E como eu gosto de me "perder" por esta Lisboa sinuosa, cheia de curvas, de altos e baixos...

O óleo é de Alan Albegov.