sexta-feira, março 24, 2017

As Penas das Galinhas e as Outras...


Muitas vezes é necessário escutarmos quem veio de fora, para olharmos  para a nossa realidade sem qualquer filtro: Mesmo que as suas palavras possam parecer "caricaturas", há por ali muitas coisas, mesmo pequeninas, que caracterizam essa coisa estranha que é ser-se português.

O Eric, cansado da mediocridade que o cercava, apontou a dedo a meia-dúzia de pessoas que fazia parte do "Coro dos Coitadinhos" e  andava com uma mão dada à "Senhora Inveja" e outra esticada, a ver se lá vai parar alguma coisa. Acabámos todos a sorrir, por conhecermos bem demais algumas daquelas"peças".

Por pudor ou cobardia,  nunca tínhamos feito um desenho tão aproximado daquela gente que andava sempre à espera que lhe fosse parar alguma dos outros às suas mãos. Invejavam descaradamente o talento dos colegas, sem nunca se esquecerem de colocar a casca de ovo do Calimero na cabeça.

Aquela conversa foi despoletada pela utilização indevida de uma fotografia do Eric no "facebook", por uma "artista", que nem sequer se dignou a dar-lhe qualquer satisfação, como se não existissem direitos de autor nas redes sociais. O Eric não só a obrigou a retirar a fotografia, como lhe disse que roubar continuava a ser feio, mesmo que fosse um simples texto ou uma imagem, acrescentando que o que havia mais por aí eram cursos de escrita criativa e de fotografia. E era boa ideia inscrever-se, podia ser que aprendesse qualquer coisa.

A rapariga como era de choro fácil, em menos de nada fez o número da "coitadinha". Teve logo dois ou três colegas com lenços de papel a enxugarem-lhe os olhos e a destilarem "raiva" para cima do Eric, com vontade de o mandarem para a terra dele.

O Eric não foi em choros e disse que não estava a brincar. E quando ouviu os outros  falarem de pena, disse-lhes que não havia por ali nenhum galinheiro.

E eu, depois de toda aquela conversa, fiquei por ali a pensar na dificuldade que temos em chamar à razão quem não tem qualquer talento e se acha o "melhor do mundo" em qualquer coisa. Ou pior ainda, quem é capaz de usar o talento dos outros para proveito próprio, como foi o caso. Não sei se é do nosso sangue quente, sei que nos falta muitas vezes a frieza do Eric, para chamar alguns elementos do "Coro dos Coitadinhos" à razão...

(Óleo de Juan Gris)

quinta-feira, março 23, 2017

Temos Forçosamente de Viver com as nossas Fragilidades...

O dia a dia encarrega-se sempre de expor as nossas fragilidades, de nos lembrar de que massa somos feitos, das nossas contradições (por mais pequenas que sejam). Isso acontece tanto no ambiente de trabalho como no seio da família, embora aqui as coisas sejam sempre vividas de uma forma mais emocional...

Quando os problemas surgem em casa é tão fácil pensarmos que o mais fácil era não termos casado ou ter filhos (a opção de cada vez mais pessoas...). Provavelmente num misto de comodismo e de egoísmo, ainda que nem sempre o queiramos aceitar. 

Depois, mais serenos, sentimos que iríamos perder tanta coisa... Não tenho qualquer dúvida que uma vida sem família e sem filhos é uma vida incompleta (até na tal exposição das nossas fragilidades, pois eles muitas vezes são o nosso "calcanhar de aquiles"...).

Mas a vida funciona quase como um "sorteio" em muitas coisas. É por isso que não somos nós que escolhemos os nossos filhos, quanto muito moldamos-os e educamos-os pelos princípios que achamos correctos (ou pelo menos tentamos...). Mas eles também não escolhem os pais, e normalmente são os filhos que têm mais dificuldade em aceitar os pais... 

Nem sempre nos lembramos que vivemos situações diferentes, e que também temos funções muito diferentes. 

É também por isso que nunca tive pretensões de "ser o melhor amigo" dos meus filhos. Sei que ser pai é outra coisa, muito mais complicada e menos simpática...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, março 21, 2017

A Poesia num Mundo Pouco Poético...


Hoje festeja-se a poesia, a natureza, dentro da estação com mais cores do mundo.

Mesmo assim, ao folhear o quase livro onde guardo "quase todos os meus poemas", parei  no "Palhaço sem Circo", porque a realidade amarga muito mais do que parece...

Palhaço sem Circo
  
Ninguém acreditava
Que o circo tivesse voado com o vento
E que ao palhaço pobre,
Velho, cansado e sem companhia,
só lhe restasse a rua
Para vaguear e sonhar
Com a cumplicidade
E os aplausos da lua...

Assim que começava a anoitecer
Vestia a roupa gasta e colorida,
Pintava-se ao espelho do seu quarto
E depois partia de viagem
Sem destino e sem palco.

Quem parava para ver o espectáculo
Ficava quase sempre encantado
Com a magia com que pintava a avenida
Despertando pombos e vagabundos
Com a sua graça e fantasia.
  
As pessoas que passavam na rua
Voltavam a sorrir por momentos
Enquanto fazia vénias aos candeeiros,
Que iluminavam o palco da sua vida,
Pulava bancos de jardim e cantava
Extasiado com os aplausos da lua...

Ninguém acreditava
Que o circo tivesse voado com o vento
E que ao palhaço pobre,
só lhe restasse a rua
E os aplausos da lua...


(poema de Luís Alves Milheiro, óleo de Luís de Souza) 

segunda-feira, março 20, 2017

«Não gosto de terras que se escondem debaixo de telhados.»

«Não gosto de terras que se escondem debaixo de telhados.

Muito menos da gente que as habita  e que gosta de espreitar à janela, do lado de lá dos cortinados, mesmo que depois me ofereça sorrisos, metidos dentro do bom dia ou boa tarde.»

Eu olhei-a com um sorriso e disse:

«É por isso que vives numa grandes metrópole, sem bairros e sem gente que se preocupa um bocadinho mais que a conta com a tua vida.»

«Provavelmente...» Foi a tua resposta.

(Fotografia de Luís Eme - estes telhados do Olho de Boi não têm nada que ver com a terra em questão)

domingo, março 19, 2017

A Estreia dos "Bonecos de Luz" do Romeu

Entramos no auditório Lopes Graça do Fórum Romeu Correia e descobrimos a sala a média luz, os actores estão entretidos a jogar à bola no palco, acompanhados pelo som de uma bateria e de uma viola baixo.

Ficamos a pensar que talvez seja o "aquecimento", para os actores e para o público...

Depois iniciou-se o verdadeiro espectáculo teatral, um misto entre o musical e a comédia, mas distante do romance adaptado. Senti-me meio perdido e experimentei um sentimento de frustração no meu olhar de espectador, porque aquilo não eram os "Bonecos de Luz" do Romeu...

Mas depois do quarto de hora inicial, em que todos andámos a "apanhar bonés", a peça começou a ganhar o jeito do romance, as personagens encarnaram os seus verdadeiros papeis e além do Zé Pardal e do Biganga, apareceu o Ti Paulino, a filha, Miquelina, e os homens que levavam os "bonecos de luz" de terra em terra, o patrão Nicolau e o Lopes, o projeccionista da máquina cheia de manhas...


E ai sim, o romance passou a ser descrito com graça. Depois o Zé Pardal despiu a farpela de futebolista de rua de gosto duvidoso (com a camisola do Ronaldo que se vende nas feiras...) e encarnou a personagem do Charlot, ao vestir as roupas da viúva rica e ao calçar as botas enormes do falecido marido. E o musical e a comédia transformaram-se em drama..

Felizmente a peça acabou bem, para mim e para todos os espectadores, e a Companhia de Teatro de Almada está de parabéns pelo trabalho realizado. 

Até porque o mundo não mudou assim tanto, se olharmos apenas para as pessoas e esquecermos as "máquinas"...

(Fotografias de Luís Eme)

sábado, março 18, 2017

Dias Agradáveis no Ginjal, e em Qualquer Lugar...

Com os dias a ficaram quase grandes e este sol a brilhar e a chegar a mais lugares, é um prazer redobrado passear por aí.

Claro que esta fotografia é de quinta-feira (embora não tenha passado hoje pelas esplanadas dos restaurantes do Ginjal, não é preciso ter nenhum dedo especial, para adivinhar que estiveram cheias de gente, a aproveitar o sol e os bons ares da praia das Lavadeiras...)

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, março 17, 2017

«Esta vida de Cão dá cabo de mim...»


Ontem o Ginjal estava muito movimentado. Maré alta e uma mão cheia de pescadores...

Pelo caminho cruzei-me com umas ciclistas e um cão que me olhou com cara de caso à sua passagem.

De repente apeteceu-me "traduzir-lhe" o olhar. Podia ser:

«Epá, estas damas estão mesmo cheias de speed».

Ou então:

«Já viste? O dia aquece e as bonecas saem logo da toca.»

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, março 16, 2017

Fábula ao Intendente

«Eu sabia que havia muita gente que achava que me vestia como as putas, foi por isso que ao descobrir o preço das rendas de casas, acabei por decidir morar no local onde elas trabalhavam. Sim, no Intendente.

Foi um desafio e pêras. Nos primeiros tempos houve espaço para tudo, puseram-me dentro de anedotas e ofereceram-me demasiadas frases de muito mau gosto. Mas o que poupei em dinheiro compensou...

Até que o actual primeiro-ministro, então "mayor" de Lisboa, decidiu instalar-se por lá e fazer daquela zona histórica em engates e facas na ligas, num bairro quase normal.

Uma das maiores mudanças que senti foi no olhar dos homens. Senti que começaram a lavar melhor a cara de manhã, pois tinham menos sujidade nos olhos, desde a estação do metro ao trajecto que costumava fazer até à universidade.»

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, março 15, 2017

As Queridas Utopias...


Vivemos num tempo em que as ideologias dominantes querem acabar com tudo, até com a nossa capacidade de sonhar.

Continuo a pensar que as utopias nos fazem bem, especialmente quando são positivas ou trazem valor acrescido para nós, no todo.

É também por isso que acho bem que o PCP e o BE continuem a defender as linhas programáticas que sempre defenderam, apesar de hoje terem alguma responsabilidade governativa.

E neste caso particular, estes cartazes nem têm nada de utópico (excepto para os pequenos e grandes capitalistas...).

Noutros tempos, socialmente mais justos, era perfeitamente normal que a cada trabalho permanente correspondesse um contrato efectivo.

Como diria o Carlos, «não confundam cagalhões com marmelos». 

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, março 13, 2017

A Invisibilidade nas Cidades Grandes...

Quando me disseram que quando fugimos de alguma coisa ou de alguém, o pior sitio para nos refugiarmos é em lugares isolados, sabia que era verdade. 

Já tinha pensado no assunto.

E sabia por experiência própria, que não há nada melhor que uma cidade grande para passarmos despercebidos... São os únicos lugares onde nos podemos sentir livres e até invisíveis... Com o que isso tem de bom e de mau.

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, março 12, 2017

Ler Mal e Entender Pior...

Normalmente não gosto muito de recorrer a frases com mais do que a minha idade, para explicar o óbvio e o menos óbvio, que tanto baralha o nosso quotidiano.

Um dos poetas e contistas que gosto de ler em todos os registos é o grande Zé Gomes Ferreira, o velho da cabeleira branca despenteada, que oferecia sorrisos e palavras a conhecidos e a desconhecidos (pensar que julguei que era um velho maluco, sem o reconhecer como o pai de "O Mundo dos Outros", que lera ainda na primeira adolescência..).

Esta frase retirada do seu livro de crónicas, "Intervenção Sonâmbula", explica tanta coisa... Até os comentários "selvagens" dos nossos dias que infectam as caixas de palavras de jornais, blogues e redes sociais

«Ler mal é uma das inúmeras formas conhecidas de analfabetismo português. Salvo seja, mas às vezes até chega a parecer que certas pessoas soletram sempre os jornais do avesso, com as mãos no chão a fazerem o pino mental.»

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, março 11, 2017

Cores e Sabores do Ginjal

A zona de restaurantes do Ginjal acaba por funcionar quase como um "oásis", pela atenção que existe para com os turistas e também pela sua localização, mesmo à beira da Praia das Lavadeiras, onde o Tejo já começa a ficar ligeiramente salgado e as casas de pasto surgem por ali com um ar simpático...

Também gosto que da forma como os donos do "Ponto Final" vão mudando a decoração do exterior.

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, março 10, 2017

A Banalização das Coisas (importantes e também das outras)...


Acho que todos funcionamos assim, uns mais outros menos. Temos tendência para banalizar as coisas, mesmo as sérias, à medida que o tempo vai passando.

A sociedade de hoje, de "informação instantânea" (curta, grossa e tóxica) também é propícia a que isso aconteça. Cada vez conheço mais gente que deixou de ver as notícias televisivas e de comprar jornais.

Mas escolhi mesmo um exemplo para focar esta nossa maneira de ser e estar. 

Muitos anos e muitas mortes depois, os governos criaram leis que "obrigaram" a sociedade a interiorizar que o tabaco era mesmo um malefício para a saúde de todos. Uma das medidas foi decorar os maços de cigarros com slogans mortíferos, com tanto de assustador como de irritante. Isto foi óptimo para os vendedores de cigarrilhas, porque ninguém queria andar com a "morte" nos dedos, sempre que fumasse um cigarro...

Como costuma acontecer nestas coisas, vários anos depois já ninguém liga muito ao assunto e as caixas, ora discretas ora douradas, para guardar cigarros, deixaram de ser moda. Nos nossos dias alguns miúdos principiantes na arte do fumo até gozam com as fotografias.

Um dos meus poucos amigos fumadores, quando lhe falei do assunto, disse que está tão habituado às palavras e às imagens dos maços, que já não surtem qualquer efeito visual ou de outro género para ele. Rematando com um daqueles lemas com que nos defendemos tantas vezes sobre a sua opção de ainda fumar: «todos temos de morrer um dia, ninguém fica cá para semente...»

(Ilustração japonesa de autor desconhecido) 

quinta-feira, março 09, 2017

Uma Flor e um Poema no Dia Seguinte

Hoje vou receber uma flor, das mãos de uma das pessoas que melhor me conhece.

Conheci-a há mais de vinte e seis anos. Fui a uma conferência de imprensa que se realizava numa das salas do Sheraton e andava por ali meio perdido, quando uma mulher bonita e simpática, que estava em serviço pela RTP, me descobriu e acabou por fazer o papel de "guia".

Como a pessoa que esperávamos demorou mais de uma hora a aparecer, fomos conversando e... mesmo sem a existência de telemóveis e redes sociais, nunca mais perdemos o rasto um do outro.

Olhamos à nossa volta e temos a percepção de que construímos algo raro, pelo menos neste tempo cheios de maquinações. 

É por isso que conhecemos a vida um do outro de trás para a frente e da frente para trás. Sabemos de tanta coisa que os nossos companheiros desconhecem... especialmente as nossas "maluquices" saídas dos sonhos, que teimam em não ser livros ou filmes...

Ela não sabe, mas hoje vou oferecer-lhe um poema.

(Fotografia de Ami Strachan)

quarta-feira, março 08, 2017

Flores Para os Homens no Dia da Mulher

O homem queria uma flor, queria ser tratado da mesma forma que as mulheres. Eu sorria para dentro, por conhecer a "peça", por saber que a tão proclamada igualdade que ele queria, não era praticada lá em casa.

Continuei a sorrir, agora também para fora, depois de ele se ter vendido pela tal flor, que a mulher que me piscou o olho lhe deu.

Acho que é aqui que está toda a diferença. A mulher vê mais com um olho que nós, homens, com os dois. A vida fácil que temos tido ao longo dos séculos tem nos desviado as atenções do essencial. 

Claro que gostamos de falar de igualdade, mas somos um bocado como os "funcionários públicos", temos medo de perder os "direitos adquiridos"...

Foi por isso que quando a mulher simpática me questionou se eu também queria uma flor, respondi-lhe com uma pergunta: «tem cravos?»

E ela sem perder o sorriso disse-me: «Agora não. Mas se esperar até ao mês que vem, prometo, que lhe ofereço, não um, mas dois.»

(Óleo de Efimovich Volkov)

terça-feira, março 07, 2017

Boca Ilha, o Rosto que Ninguém Vê...

"Boca Ilha, o Rosto que Ninguém Vê", é uma peça de Carolina Bettencourt e Miguel Curiel (que também são os interpretes), que parte do universo poético de Natália Correia e se expande por outros mundos poéticos, de Alberto Caeiro a Cesariny, Ary, Sophia e Mário de Sá Carneiro. 

A peça vai estar em cena nos dias 11 e 12 de Março, no Teatro O Bando (Vale dos Barris, Palmela) e é encenada por Nuno Nunes.

segunda-feira, março 06, 2017

O Mundo é Sempre Mais Complicado do que o que Parece...


Nunca tinha pensado que no mundo real era possível encontrar uma mulher incapaz de olhar para mim nos olhos, e pior ainda, de falar normalmente comigo.

Tudo o que acontece tem uma história. Neste caso particular, um único homem foi suficiente para despoletar um ódio para toda a vida, por todos os outros homens.

Também deve acontecer o contrário, homens incapazes de ter uma relação normal com mulheres (sem estar a meter o sexo ao barulho...).

É por isso que não tenho qualquer dúvida que o mundo é sempre mais complicado do que o que parece...

(Óleo de D' Souza)

domingo, março 05, 2017

O Surpreendente Nelson Campeão Europeu

Hoje durante um almoço festivo (sem televisão por perto...) falou-se dos campeonatos da Europa de Atletismo, da prata da Patrícia, e claro, do Nelson Évora, na nossa mesa.

Numa mesa com dois sportinguistas e dois benfiquistas, ninguém acreditava na possibilidade de vitória do Nelson, pela grande exigência física do triplo-salto e pela sua idade... Um de nós disse que no atletismo não costumavam existir milagres. 

Mesmo sem qualquer milagre, fiquei extremamente feliz quando soube que o Nelson Évora tinha conquistado o ouro.

Outra coisa que se falou à refeição foi a sua passagem do Benfica para o Sporting. O Manel não tinha gostado nada da mudança e queria que ele ficasse longe das medalhas. Eu como segundo benfiquista da mesa fiz a sua defesa. Com a idade do Nelson não pode haver lugar para romantismos, e se o Sporting lhe ofereceu um ordenado muito superior ao que o Benfica lhe oferecia, ele fez muito bem em mudar...

(Fotografia retirada do site do "D. Notícias")

sábado, março 04, 2017

Ler as Palavras dos Outros


Nem mesmo aos fins de semana consigo ficar mais tempo na cama. Talvez isso aconteça porque dormir muito nunca foi o meu forte.

Comi qualquer coisa, sentei-me ao computador e antes de dar um salto pelos jornais visitei dois blogues, de duas mulheres, a Isabel e a Elvira, que "moram perto" e passam praticamente todos os dias pelo "Largo". Fiquei a pensar nas suas reflexões e também no que comentei...

A primeira constatação é que a vida mudou mesmo muito. Passámos a viver com mais conforto e fomos-nos tornando cada vez mais exigentes. Socialmente também crescemos muito, e ainda bem.

Sei que alguns homens (daqueles que aderem com facilidade às histórias de não sei quantas virgens...), gostavam mais de viver num tempo em que as mulheres continuassem a ter mais deveres que direitos. Um bom exemplo desta  "filosofia" são as palavras ditas por um deputado polaco esta semana no parlamento europeu. Num resumo simplista, disse que as mulheres eram menos inteligentes e mais fracas fisicamente, por isso não podiam querer ser iguais a nós, homens.

Sei que só posso falar por mim, mas sempre me fez confusão a minha mãe ser criada do meu pai, como eram praticamente todas as mulheres da sua geração. E soube desde cedo que não queria viver assim.

É também por isso que percebo muito bem que ninguém queira voltar atrás no tempo. Porque não é normal as pessoas casarem-se e irem viver para um quarto alugado. Podia ser há sessenta anos, onde não havia água, luz ou casas de banho em noventa por cento das casas das aldeias do nosso país. E quase tudo era bom para se fugir à fome ou à vida de escravidão nos campos...

Por isso é que existiam tantos bairros de lata à volta de Lisboa ou até Paris, povoados por gente que sonhava com uma vida diferente, e que mais tarde ou mais cedo (com muito sacrifício), conseguiam mesmo mudar de vida.

Mas não precisavam de esquecer. Nem de esconder a vida que tiveram dos filhos e netos. Tinham tornado tudo mais fácil...

Sei que agora está a falar o "historiador", mas olhar para o passado sempre foi uma das melhores ajudas para compreendermos o presente e enfrentarmos o futuro.

Foi por isso que gostei de reflectir com as palavras da Elvira e da Isabel.

(Fotografia de Walker Evans)

sexta-feira, março 03, 2017

Sou Mesmo uma "Esponja"...

Nem sempre me apercebo da minha capacidade de absorção e transformação (quase em simultâneo) de uma frase que ouço na rua numa pequena história...

E lá vai mais uma "prosa" para a pasta dos "contos malucos"...

E sim, é verdade, há quem escreva sem gostar de  ler livros. Claro que escreve coisas estranhas, normalmente mal construídas, como o fulano que apareceu num clube de leitura e quando começou a falar, contou a história de um livro que ninguém conhecia, nem mesmo ele próprio, pouco dado a leituras...

(Fotografia de Luís Eme - não tem quase nada a ver, mas o bar "A Cerca" ficou mais bonito com este "boneco", com a marca da "Semana do Amor")

quinta-feira, março 02, 2017

«Sim, todas as coisas que escrevemos são autobigráficas, mesmo as que não foram vividas por nós»

Recebi há já algum tempo, um convite raro, para falar sobre o que quisesse, perante uma plateia interessada nas coisas da cultura. Podia falar de livros, do jornalismo, de associativismo ou de outra coisa qualquer. Agradeci a deferência e disse que sim, que iria arranjar um tema que pudesse despertar o interesse das pessoas.

No início estava inclinado para falar sobre jornais e jornalismo, por ser uma coisa que é praticamente inexistente em Almada neste novo milénio. Por saber que teria falar de coisas que não me interessam muito, de apontar dedos e de ser crítico de uma realidade translúcida, que interessa preferencialmente a quem não gosta de "contraditórios", acabei por mudar de ideias.

O associativismo nunca foi sequer hipótese, porque também teria de ser polémico e repetitivo. Por muito que aprecie Gil Vicente, não quero fazer o papel do "diabo", muito menos utilizar algo que foi tão importante na vida dos almadenses, como mera "personagem" de discurso, com mais palha que substancia. 

Inevitavelmente, sobram os livros... A minha experiência de mais de vinte anos,  a marcar presença nos "campeonatos regionais" e na "terceira divisão" da literatura. A Rita deve ter alguma razão, quando diz que sou como aqueles jogadores que dão uns toques com a bola, mas como têm medo de se deslumbrar com a fama, não aceitam as propostas "indecentes" de alguns empresários.

Como tenho escrito um pouco de tudo, sei muito bem onde começa a "inspiração" e acaba a "transpiração" no jogo de palavras.

E também já não consigo discordar de que todas as coisas que escrevemos são autobiográficas, mesmo as que não foram vividas por nós. Pode parecer contraditório, mas não é. Todas as histórias, com e sem dono, quando entram dentro de nós, ficam sempre com "a nossa marca".

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, março 01, 2017

Rui de Carvalho, um Homem Especial

Rui de Carvalho completa hoje noventa anos. Além de ser um dos nossos grandes actores, é um homem especial, que tive o prazer de entrevistar...

Foi a primeira pessoa que entrevistei para uma rubrica que tinha no jornal "Record" no começo dos anos 1990 ("Contra-Ponto"), num momento difícil da sua vida, pois tinha sido operado há pouco tempo e apesar da aparente fragilidade, recebeu-me com grande afabilidade no seu camarim do teatro Dona Maria II. 

Recordo-me de ele me abrir a porta, cansado e suado, poucos minutos depois de receber os aplausos do público, em mais uma excelente representação da peça  "Minetti, o Retrato do Artista quando Velho", em que interpretava a personagem principal do drama de Thomas Bernhard.

Fomos várias vezes interrompidos por gente amiga que tinha vindo ao camarim dar-lhe um abraço.

Foi uma conversa muita agradável com um ser humano de excepção, que recordo com grande ternura.

(Fotografia de autor desconhecido)